Que galo cantou
quando Pedro negou Jesus se não havia galos naquela região?
Havia um galinheiro na casa de Anás e de Caifás? Que galo cantou quando
Pedro negou Jesus se não havia galos naquela região? Mateus 26.69-75 e textos
paralelos descritos nos outros evangelhos apresentam uma das mais fascinantes
histórias na vida de Pedro, discípulo do amado Mestre.
Costumeiramente, tem se aceito com toda
naturalidade que o “canto do galo” referido por Jesus quando
falou antecipadamente que Pedro o trairia, era realmente o cantar de um galo,
uma ave. No entanto, pode perfeitamente ser que o canto do galo não fosse o
canto de uma ave; e desde o começo não pretende significar isso.
Acima de tudo, a casa do Sumo Sacerdote estava no
centro de Jerusalém. E, certamente, não haveria um galinheiro no centro da
cidade. De fato, havia uma regra na lei judaica que era ilegal ter galos e
galinhas nas cidades santas por questões higiênicas. Jerusalém era tida como
uma cidade santa e as galinhas sujariam a cidade. De acordo com o Baba
Qama 7.7 era proibido “criar galinhas em Jerusalém por causa das coisas
santas”.
Por isso, havia uma ordem rabínica seguida à
risca pela população: essa ordem era contra qualquer criação ou manutenção de
galos ou galinhas dentro das muralhas da cidade, visto que eles, além de
fazerem suas necessidades físicas em qualquer lugar, também ciscavam procurando
pequenos bichos para se alimentarem, produzindo então, coisas impuras, violando
assim, a lei da pureza em Israel, que era de extrema importância para eles.
A Lei Judaica da época
O que a Mishná, em sua divisão Nezikin (“Danos”),
e no tratado Baba Kama 7.7 nos diz sobre aves e outros
tipos de animais:
1 - Eles não podem criar gado miúdo na Terra de
Israel, mas eles podem criá-los na Síria ou nos desertos que existem na Terra
de Israel
2 - Eles não podem criar galos em Jerusalém por
causa das Coisas Santas, nem os sacerdotes podem criá-los [em qualquer lugar]
na Terra de Israel por causa de [as leis concernentes a] alimentos puros.
3 - Ninguém pode criar porco em qualquer lugar
4 - Um homem não pode criar um cão a menos que seja
mantido ligado por uma corrente.
5 - Eles não podem criar armadilhas para os pombos
a menos que seja de trinta ris (6436 metros), de um lugar habitado.
[DANBY, Herbert. The Mishnah. [Translated from
the Hebrew with Introduction and Brief Explanatory Notes]. Oxford, Oxford
University Press, 1933, p.342.]
Danby ainda traz quatro notas explicativas sobre
algumas partes deste texto, sendo a segunda nota a mais relevante para o nosso
estudo. Eis as notas:
1) A proibição quanto à criação de “gado miúdo”
ocorre porque eles prejudicam os campos semeados.
2) A proibição sobre a criação de “galos” existe
porque eles são suscetíveis a escolher uma massa de lentilha de alguma coisa
rastejante morta, transmitindo, assim, a impureza para as casas (ao voltarem
para lá, pois são galos domésticos).
3) A palavra “ninguém”, na expressão “ninguém pode
criar porco em qualquer lugar”, aparece em alguns textos como “nenhum
israelita”.
4) Por fim, a expressão “trinta ris” equivale à
distância de quatro milhas (6.436 metros). (Cf. DANBY, Herbert. Op.Cit.,
p.342).
(*Nota: Carlos Augusto
Vailatti - Artigo Teológico | A Verdade Sobre o “Canto do Galo”
no Episódio da Negação de Pedro - 2011)
Mas, então se não se podia criar ou manter vivo galos e galinhas dentro
dos portões da cidade, especialmente no centro, na casa do Sumo Sacerdote em
especial, de onde apareceu esse galo para cantar? Era realmente uma ave ou esse
termo “o cantar do galo” poderia se referir a alguma outra coisa
que não fosse uma ave?
Muitos cometem equívocos porque não conhecem a cultura, o cotidiano, o dia a
dia da população judaica e romana dos tempos bíblicos; e, por causa disso, não
conseguem captar o que o texto realmente quis dizer na sua origem. O que o
texto quer dizer com canto do galo?
O segredo todo está na forma em que os romanos dividiam a noite. Esta era
dividida em quatro vigílias de aproximadamente 3 horas cada uma:
a) Prima vigília ou primum gallicinium: do pôr do sol até às 9
horas, também chamado de vigília do entardecer.
b) Secunda vigília ou secundum gallicinium: das 9
horas à meia-noite, chamada de vigília da meia-noite.
c) Tertia vigília ou tertium gallicinium: de zero hora às 3
horas, também conhecida como vigília do canto do galo.
d) Quarta vigília ou quartus gallicinium: das três até a aurora,
chamada de vigília do amanhecer.
Essas quatros vigílias
determinavam o período das três horas do serviço da guarda romana. Os judeus
inicialmente dividiam a noite em três vigílias: a primeira, “princípios das vigílias” (Lamentações 2.19), ia desde o sol posto até
às 10 horas da noite; a segunda, a "vigília média” ou da "meia-noite" (Juízes 7.19) principiava às 10 horas da
noite e prolongava-se até às duas horas da madrugada; e, a terceira, a “vigília da manhã” (1 Samuel 11.11), desde as duas horas da até
ao nascer do sol.
No entanto, em tempos posteriores, na época do
império romano a noite passou a ser dividida, segundo o costume dos romanos, em
quatro vigílias (desde as 6 horas da tarde às 6 horas da manhã), de três horas
cada uma (Mateus 14.25 e Lucas 12.38). Em Marcos (13.35), as quatro vigílias
são designadas pelo nome especial de cada uma.
Veja texto:
Marcos
13.35-37. Vigiai. Pois, porque não sabeis quando virá o dono da casa: se à
tarde, se à meia-noite, se ao cantar do galo, se pela manhã; para que, vindo
ele inesperadamente, não vos ache dormindo. O que, porém, vos digo, digo a
todos: vigiai!
Os judeus com frequência usavam uma forma
abreviada quando se referiam a essas vigílias da noite. “Tarde” era
uma expressão com a qual se referiam ao fim da vigília, ou seja, 21h00
min. “Meia-noite” indicava o fim da segunda vigília. Você
observou? “Cantar do galo” era o termo usado por eles para o
fim da terceira vigília, ou seja, três horas da madrugada. E “pela manhã” o
modo como se referiam ao fim da quarta vigília, ou seja, às seis horas da
manhã. Jesus pode voltar em qualquer das quatros vigílias romanas, que
terminavam respectivamente, às 21 horas, 24 horas, 3 horas e 6 horas da manhã.
O que isso tudo tem a ver
com a história de Pedro? É que o “canto do galo” era a expressão usada naquela época no
império romano para se referir ao toque do trombeta tocada pelo soldado romano
avisando a todos o final da terceira vigília da noite, ou seja, três horas da
manhã. No primeiro século, assim em Jerusalém como em todas as cidades
importantes denominadas pelo império romano, esse toque da trombeta era conhecido
como “canto do galo”.
O final de cada vigília e o início da próxima era
assinalado por um toque de trombeta. Assim, da mesma forma como nas vigílias
anteriores, ao final da terceira vigília um sinal era dado pelos guardas
romanos e ocorria a troca da guarda. Esse soar da trombeta às três horas da
manhã era chamado em latim “gallicinium” e de “alektorophonia” em grego e ambos significavam em português “o canto do galo”. Essa expressão romana adveio do fato de que os
galos normalmente cantam de madrugada, embora não haja horário previsto para as
aves o fazerem.
Portanto, se isso realmente
foi dessa forma, Jesus estava identificando a hora exata da última negação de
Pedro: segundos antes das três horas manhãs, quando ocorria o “gallicinium”. Se fosse um galo ave, não haveria um tempo
específico para o cumprimento da palavra de Jesus, pois os galos são
imprevisíveis e cantam inúmeras vezes na madrugada. Mas, lembremo-nos que era
proibido ter galos ou galinhas dentro dos muros da cidade. Na verdade, não era
um sinal que seria dado por uma ave, seria um sinal militar, uma trombeta, que
demoliria o coração e a alma de Pedro. Não seria o canto de um galo qualquer,
cujo barulho não se nota ao longe, mas a trombeta do soldado que ecoaria a
negação de Pedro por toda a cidade, como que anunciando a triste e grande
covardia operada pelo apóstolo.
Todos em Jerusalém sabiam do toque da troca de
guarda às 3três horas da manhã no castelo de Antônia e conheciam que o toque da
trombeta era chamado de “canto do galo”. Jesus não falara de um corriqueiro canto de um
galo no fundo do quintal da casa da Aná e de Caifás, mas do barulho
ensurdecedor da trombeta que se espalhava por toda Jerusalém, soando forte nos
ouvidos de Pedro, balançando sua alma, fazendo com que chorasse copiosamente
por ter negado a Jesus.
Como explicar o fato, então, do evangelista Marcos
narrar a predição de Jesus de uma forma mais específica que os demais
evangelistas? Em Marcos 14.30, Jesus diz a Pedro: “Antes que o “galo cante” duas vezes, três vezes me negarás”. O que acontecia é que durante os tempos festivos, devido ao
grande número de pessoas na cidade de Jerusalém a trombeta era com frequência
tocada duas vezes, primeiro em uma direção e depois de alguns minutos em outra
direção. Como era época da Páscoa, a trombeta tocou duas vezes. Isso nos
assegura que a terceira negativa de Pedro aconteceu imediatamente segundos
antes das 3 horas da madrugada.
Outra explicação é dada pelo historiador Plínio
que afirma o seguinte: o toque da trombeta da meia-noite era conhecido como o “primeiro cantar do galo”; o toque das três horas da manhã era conhecido
como o “segundo cantar do galo”. Desta forma, Plínio sugere que a primeira
negação teria acontecido momentos antes da meia-noite e a última negação de
Pedro exatamente segundos antes das três horas da madrugada. A segunda negação
teria ocorrido no espaço entre a meia-noite e às três horas da manhã, o que é
também uma explicação extremamente viável para o acontecido.
Fonte:
Expressões
Publicadas
Texto extraído do livro
"Como Entender os Textos Mais Polêmicos da Bíblia", de Jaziel
Guerreiro Martins, Editora A. D. Santos.
https://www.pcamaral.com.br/2016/07/que-galo-cantou-quando-pedro-negou.html

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