Introdução
Poucas cenas do cristianismo
são tão conhecidas e, ao mesmo tempo, tão pouco questionadas quanto a visita
dos magos ao menino Jesus. O texto é breve (Mt 2,1–12), quase econômico em
detalhes, mas generoso em símbolos. Ouro, incenso e mirra atravessaram séculos
como presentes quase decorativos nas encenações do Natal. No entanto, a
teologia cristã sempre desconfiou do óbvio: quando a Bíblia é sucinta, ela
costuma ser profunda.
A Epifania não celebra apenas
um encontro; celebra uma revelação. E toda revelação pede perguntas. Por
que esses presentes? Quem eram esses homens? O que esses elementos significavam
no mundo antigo? E o que ainda dizem hoje, quando os lemos à luz da teologia e,
ousadamente, da química?
Este texto propõe uma leitura
interdisciplinar: ciência e fé não como rivais, mas como linguagens distintas
que tentam nomear o mesmo mistério.
Quem eram os magos? Reis,
sábios ou leitores do céu?
A tradição cristã, ao longo
dos séculos, chamou-os de reis e lhes atribuiu nomes: Melquior, Gaspar e
Baltasar. Essa imagem está profundamente enraizada no imaginário popular,
nas artes, nos presépios e nas celebrações da Epifania. No entanto, é preciso
começar com honestidade teológica: nenhum desses detalhes aparece
explicitamente no texto bíblico.
O Evangelho segundo Mateus é
deliberadamente sóbrio. Ele afirma apenas que "magos vieram do
Oriente" (Mt 2,1). O termo grego utilizado é magoi, palavra
que, no mundo antigo, designava sábios, estudiosos da natureza, intérpretes
dos astros e do cosmos. Não se tratava necessariamente de feiticeiros no
sentido popular, mas de homens dedicados à observação da realidade e à busca de
sentido nos sinais do mundo.
De onde surgiram os nomes
Melquior, Gaspar e Baltasar?
Os nomes não nasceram da
Bíblia, mas da tradição cristã posterior, especialmente entre os séculos
III e VI. Textos apócrifos, comentários patrísticos e a catequese popular
começaram a preencher os silêncios do Evangelho. Um dos registros mais antigos
aparece em escritos ligados à Igreja Oriental e, mais tarde, no Ocidente
medieval.
A tradição também passou a
associá-los a três continentes conhecidos na Antiguidade — Europa, Ásia
e África — como forma simbólica de afirmar que Cristo se manifesta a toda a
humanidade. Assim, os magos deixam de ser apenas indivíduos históricos e se
tornam figuras teológicas: representantes do mundo que busca, pergunta e
caminha.
Outra associação posterior foi
chamá-los de reis, inspirada em textos do Antigo Testamento como o Salmo
72,10–11 ("Os reis de Társis e das ilhas trarão presentes") e
Isaías 60,3 ("As nações caminharão à tua luz, e os reis, ao brilho da
tua aurora"). A leitura cristã viu nesses textos uma antecipação
profética da cena narrada por Mateus.
Astrólogos, cientistas antigos
ou buscadores do sentido?
Aqui surge um ponto de diálogo
fértil entre teologia e ciência. Os magos eram, à sua maneira, leitores do
céu. Observavam movimentos, padrões, repetições. Faziam aquilo que hoje
chamaríamos de investigação empírica, ainda que envolta em categorias
simbólicas próprias de seu tempo.
A pergunta teológica se impõe:
por que Deus escolhe se revelar a homens que observam estrelas, e não apenas
aos especialistas da Lei? A resposta da Epifania é silenciosa, mas
contundente. Deus se deixa encontrar por quem busca com sinceridade, mesmo fora
dos limites religiosos oficiais.
Os magos não pertenciam ao
povo da promessa, não dominavam a Torá, não frequentavam o templo. Ainda assim,
perceberam um sinal. A estrela não exigiu credenciais, nem identidade
religiosa. Ela simplesmente brilhou.
Nesse sentido, a Epifania
proclama uma verdade desconcertante: Cristo não pertence a um grupo, mas ao
mundo. A revelação atravessa fronteiras culturais, religiosas e
intelectuais. A fé cristã nasce, desde o início, em diálogo com o estrangeiro,
o diferente e o buscador.
Por que esses presentes?
Acaso, luxo ou teologia silenciosa?
Nada no texto bíblico sugere
improviso. Os presentes não são aleatórios. Cada elemento carrega um peso
histórico, simbólico e espiritual. Eles falam antes mesmo que o menino fale.
O ouro: o metal que não se
corrompe
Do ponto de vista químico, o
ouro (Au) é um elemento singular. Resiste à oxidação, não enferruja, não perde
o brilho com o tempo. Sua estabilidade atômica o tornou, ao longo da história,
símbolo de valor, permanência e poder.
A teologia bíblica conhece bem
esse simbolismo. O ouro está associado à realeza e à glória divina. O
tabernáculo, o templo e os utensílios sagrados eram revestidos de ouro (Êx
25–30). No Apocalipse, a Nova Jerusalém é descrita como uma cidade de ouro puro
(Ap 21,18).
A pergunta que se impõe é
inevitável: por que oferecer ouro a uma criança pobre, deitada em uma
manjedoura? A resposta não está na economia, mas na cristologia. O ouro
confessa, sem palavras, que aquele menino é Rei. Um rei que não governa pela
força, mas pela permanência. Como o ouro, seu reinado não se corrói com o
tempo.
O incenso: a química do
invisível que sobe
O incenso, ou frankincense,
é uma resina aromática obtida de árvores do gênero Boswellia.
Quimicamente, trata-se de uma mistura complexa de compostos orgânicos voláteis
que, ao serem queimados, liberam fragrâncias capazes de alterar o ambiente e a
percepção sensorial.
Na Bíblia, o incenso é
linguagem de culto. Sua fumaça que sobe simboliza a oração que se eleva a Deus
(Sl 141,2). Somente os sacerdotes podiam queimá-lo no templo, diante do Santo
dos Santos.
Aqui a pergunta teológica é
direta: por que oferecer incenso a Jesus? Porque o incenso reconhece
nele não apenas um rei, mas um mediador entre Deus e os homens. O presente
proclama: este menino é digno de adoração.
A química explica o aroma; a
teologia explica o sentido. Uma sem a outra fica incompleta.
A mirra: o presente
desconfortável
A mirra talvez seja o presente
mais perturbador. Trata-se de uma resina com propriedades medicinais,
analgésicas e conservantes. Era usada em embalsamamentos e ritos funerários. Do
ponto de vista químico, seus compostos atuam no alívio da dor e na preservação
do corpo.
A pergunta que ecoa é quase
incômoda: por que levar um símbolo de morte a um recém-nascido? A
teologia cristã não suaviza a resposta. A mirra anuncia, desde o início, que
aquele que nasceu para salvar, morreria para cumprir sua missão.
O evangelho de João fecha o
ciclo: Jesus é sepultado com mirra (Jo 19,39). O presente dos magos não foi
apenas profético; foi coerente.
Epifania: quando a fé aprende
a dialogar
A Epifania não é apenas uma
data litúrgica. É um convite ao pensamento. Os magos leram o céu; os pastores
ouviram anjos; Herodes consultou escribas. Cada um respondeu à revelação de
forma distinta.
Talvez a pergunta final seja a
mais atual: onde buscamos hoje nossas epifanias? No laboratório, no
texto bíblico, na sala de aula ou no silêncio da fé? A química nos ensina que a
matéria guarda mistérios. A teologia nos lembra que o sentido não se mede em
gramas ou fórmulas.
Entre ouro, incenso e mirra, a
Epifania nos ensina que fé e razão não se excluem. Elas se encontram, como os
magos, diante do mistério — e se ajoelham, não por ignorância, mas por
reverência.
Perguntas para reflexão
- O que meus presentes revelam sobre aquilo
que considero sagrado?
- Tenho buscado a verdade apenas no que é
útil ou também no que é simbólico?
- Sou capaz de reconhecer Deus fora dos meus
mapas religiosos?
A Epifania continua
acontecendo. A pergunta é: estamos atentos à estrela?
links para complementar o estudo:
https://padrepauloricardo.org/blog/quem-foram-os-tres-reis-magos-e-quando-visitaram-jesus
https://www.youtube.com/watch?v=czr574hvx5M
https://www.respostas.com.br/quem-eram-os-magos-do-oriente/
https://www.youtube.com/watch?v=NiLy8sBFOWw
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